domingo, 28 de abril de 2013

CAVALO DE GUERRA


Há tempos não assistia a um bom filme de tema eqüino. Ontem vi Cavalo de Guerra, do Spielberg. Era tarde da noite, bem tarde, num dia de semana, primeiro útil do ano após a volta das festas de passagem. Não era um bom dia. Um filme simples, mas profundo e tocante a quem tem a sensibilidade afinada ao tema. Meu caso. Mas não era bom, o momento. Definitivamente.

Desencontro comigo mesmo, desconexão de minha própria essência, atitudes internas conflituosas. Habitavam em mim duas vontades: a de ver o filme e a de não me ver por um tempo. Optei pelas duas. Vi o filme, mas não o enxerguei por completo. Eu, que tenho, em parte, alma de cavalo, não pude alcançar a do protagonista.

Gana, ousadia, resignação, ruptura, perda, brio, superação, conquista e glória. Todos estes temperos compõem o denso e saboroso caldo que é levado ao fogo e se apura ao longo de Cavalo de Guerra. Como uma fina iguaria estampada na tabuleta de calçada que exibe o prato do dia em um restaurante badalado, a película excita as papilas gustativas de todos os que passam. Avistam-na, desejam-na e ingerem-na espartanos e atenienses, mas só os últimos podem dar-se a chance de degustá-la realmente. Ver o que está além do olhar.

Não vi, portanto. Não tudo. Não enquanto assistia ao filme. Já era tarde, bem tarde da noite. Minha alma dormitava enquanto o organismo restante era mantido desperto por uma febre fria, inquieta e invasiva. Hoje o dia foi dedicado a filtrá-la e, então, expeli-la. Novo dia.

Voltei à noite para casa, após intenso mergulho espiritual. Exalação, enfrentamento, transpiração, constatação, desinfecção. Tudo por dentro. Deus é e sempre será mais, melhor e maior. Pleno.

Enquanto jantava, liguei novamente o filme. Não o filme propriamente, a que assisti inteiro, ontem. Mas a parte dos bônus em que o diretor nos dá pistas do que se passava em sua cabeça e mostra um pouco do cenário por detrás das telas. Atores, produtores e demais staff contando seu trabalho e suas impressões. Regado à impactante trilha sonora. Música que embalou o filme. Música de filme. Nasceu ali, para mim, a sua genialidade.

Cavalo de Guerra ainda não havia brotado todo em mim. É, sim, um filme simples. Enredo simples, fórmula conhecida de se impressionar a camada mais superficial da cebola emocional do grande público. Sem surpresas ou grandes sacadas. Mas de toda a cesta básica disponível, a trilha foi o ingrediente da noite. Não porque fosse de composição especialmente genial, mas é como o alho receber o vinho no ponto certo enquanto sofre a douração no azeite. Vai dar uma espevitada, mas fica na medida para receber o tomate.

Enquanto minha maior atenção estava sobre a comida e a taça de vinho, cansado mas já bem mais leve de mim mesmo, furtava de vez em quando o olhar ao quase making-of que rolava na tela. A trilha, então, fazia seu papel.

Entre um bocado e outro, o tema principal do filme se reconstruía ante meus olhos de dentro. Era, na verdade, uma nova construção de algo já imanente – a alma eqüina. E a trilha. Eu não precisava muito olhar para a tela. Agora o filme ia nascendo por dentro. Seus taninos iam se revelando. Gana, ousadia, resignação... sabe? E a trilha. Que reconstituía em mim esses atributos. Próprios do cavalo.

― Do cavalo?
― Sim.
― Tem certeza? Você... – muitos que me conhecem dirão.
― Sim.
― Mas é metafórico, não?
― Sim, claro que é.
― Ah bom...
...
― Mas e o protagonista?
― É dele que estou falando.
― Mas você não acabou de dizer que tudo isso está no cavalo?
― Isso, o protagonista.

Força e leveza. Peso e agilidade. Coragem e susto. Há, como esses, inúmeros outros atributos antagônicos facilmente perceptíveis no cavalo. Guardadas as óbvias diferenças, é exatamente como se comporta o homem em sua natureza terrena. Não é esta que exalto ou almejo, é verdade. Mas é uma camada inevitável que devemos descascar em nossa aventura humana, se quisermos chegar ao cerne, que fica além da cebola, embora parta de dentro dela.

Batalha anunciada. Os prazeres e dores que em nossos membros guerreiam formam a pelagem bicolor, alazã e branca, que nos define também a silhueta eqüina. Ira santa, doce impetuosidade, bronca sensibilidade que hão de nos definir um caminho. A gravidade amargamente convida aos vales escuros. As asas do Espírito, no entanto, apontam outro plano.

A trilha sonora define o ritmo. Respiro fundo, fecho os olhos e ouço-a com o coração. Gana, ousadia, resignação... De todos os atributos e circunstâncias, há um que importa e não exatamente nos pertence, embora nos seja intrínseco almejá-lo.

Uma brisa me distrai e meus olhos se voltam para as alturas da terra. Algo brilha lá em cima. Glória... de um brilho magnético. Meus pés vibram. Volto a respirar. Como um cavalo de guerra.

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