quarta-feira, 24 de julho de 2013

Escritor em vida



Escrever pode ser a atividade mais extasiante na vida de um escritor. Mas pode ser também a mais extenuante. Quando se encontra o cordel dourado, o fio de ouro que liga o coração aos céus, ao puxá-lo, descem com ele estórias eternas que farão história na vida dos leitores. 

Labuta, sim. Quebrantamento, também. Dedicação extrema, resignação, entrega absoluta ao texto. Não pelo texto – que, pelo menos, não seja totalmente por ele. Nem por si mesmo, o escritor – ou não totalmente, pois o texto é parte dele, se bem que é também o seu todo. Mas pelo leitor. Definitivamente, pelo leitor, que deve, ao ler, poder sentir-se completo no que lhe falta; saciado no que se lhe escasseia; pleno no que o anula; divino no que o inferniza.

Escrever é doar, em letras simples, toda a fortuna virtuosa que se recebe, todos os dias, em medidas eternas de versos solenes. É esvaziar-se em porções textuais do infinito poético para tornar-se a encher cada vez do mel que emana de supremas e versais fontes.

Escrever é dar vida, somente, ao que – à vida – importa unicamente. É, ao invés disso, vivê-la, pari-la e dela nascer, a palavra. Escrever é a própria palavra. É vida.

domingo, 28 de abril de 2013

CAVALO DE GUERRA


Há tempos não assistia a um bom filme de tema eqüino. Ontem vi Cavalo de Guerra, do Spielberg. Era tarde da noite, bem tarde, num dia de semana, primeiro útil do ano após a volta das festas de passagem. Não era um bom dia. Um filme simples, mas profundo e tocante a quem tem a sensibilidade afinada ao tema. Meu caso. Mas não era bom, o momento. Definitivamente.

Desencontro comigo mesmo, desconexão de minha própria essência, atitudes internas conflituosas. Habitavam em mim duas vontades: a de ver o filme e a de não me ver por um tempo. Optei pelas duas. Vi o filme, mas não o enxerguei por completo. Eu, que tenho, em parte, alma de cavalo, não pude alcançar a do protagonista.

Gana, ousadia, resignação, ruptura, perda, brio, superação, conquista e glória. Todos estes temperos compõem o denso e saboroso caldo que é levado ao fogo e se apura ao longo de Cavalo de Guerra. Como uma fina iguaria estampada na tabuleta de calçada que exibe o prato do dia em um restaurante badalado, a película excita as papilas gustativas de todos os que passam. Avistam-na, desejam-na e ingerem-na espartanos e atenienses, mas só os últimos podem dar-se a chance de degustá-la realmente. Ver o que está além do olhar.

Não vi, portanto. Não tudo. Não enquanto assistia ao filme. Já era tarde, bem tarde da noite. Minha alma dormitava enquanto o organismo restante era mantido desperto por uma febre fria, inquieta e invasiva. Hoje o dia foi dedicado a filtrá-la e, então, expeli-la. Novo dia.

Voltei à noite para casa, após intenso mergulho espiritual. Exalação, enfrentamento, transpiração, constatação, desinfecção. Tudo por dentro. Deus é e sempre será mais, melhor e maior. Pleno.

Enquanto jantava, liguei novamente o filme. Não o filme propriamente, a que assisti inteiro, ontem. Mas a parte dos bônus em que o diretor nos dá pistas do que se passava em sua cabeça e mostra um pouco do cenário por detrás das telas. Atores, produtores e demais staff contando seu trabalho e suas impressões. Regado à impactante trilha sonora. Música que embalou o filme. Música de filme. Nasceu ali, para mim, a sua genialidade.

Cavalo de Guerra ainda não havia brotado todo em mim. É, sim, um filme simples. Enredo simples, fórmula conhecida de se impressionar a camada mais superficial da cebola emocional do grande público. Sem surpresas ou grandes sacadas. Mas de toda a cesta básica disponível, a trilha foi o ingrediente da noite. Não porque fosse de composição especialmente genial, mas é como o alho receber o vinho no ponto certo enquanto sofre a douração no azeite. Vai dar uma espevitada, mas fica na medida para receber o tomate.

Enquanto minha maior atenção estava sobre a comida e a taça de vinho, cansado mas já bem mais leve de mim mesmo, furtava de vez em quando o olhar ao quase making-of que rolava na tela. A trilha, então, fazia seu papel.

Entre um bocado e outro, o tema principal do filme se reconstruía ante meus olhos de dentro. Era, na verdade, uma nova construção de algo já imanente – a alma eqüina. E a trilha. Eu não precisava muito olhar para a tela. Agora o filme ia nascendo por dentro. Seus taninos iam se revelando. Gana, ousadia, resignação... sabe? E a trilha. Que reconstituía em mim esses atributos. Próprios do cavalo.

― Do cavalo?
― Sim.
― Tem certeza? Você... – muitos que me conhecem dirão.
― Sim.
― Mas é metafórico, não?
― Sim, claro que é.
― Ah bom...
...
― Mas e o protagonista?
― É dele que estou falando.
― Mas você não acabou de dizer que tudo isso está no cavalo?
― Isso, o protagonista.

Força e leveza. Peso e agilidade. Coragem e susto. Há, como esses, inúmeros outros atributos antagônicos facilmente perceptíveis no cavalo. Guardadas as óbvias diferenças, é exatamente como se comporta o homem em sua natureza terrena. Não é esta que exalto ou almejo, é verdade. Mas é uma camada inevitável que devemos descascar em nossa aventura humana, se quisermos chegar ao cerne, que fica além da cebola, embora parta de dentro dela.

Batalha anunciada. Os prazeres e dores que em nossos membros guerreiam formam a pelagem bicolor, alazã e branca, que nos define também a silhueta eqüina. Ira santa, doce impetuosidade, bronca sensibilidade que hão de nos definir um caminho. A gravidade amargamente convida aos vales escuros. As asas do Espírito, no entanto, apontam outro plano.

A trilha sonora define o ritmo. Respiro fundo, fecho os olhos e ouço-a com o coração. Gana, ousadia, resignação... De todos os atributos e circunstâncias, há um que importa e não exatamente nos pertence, embora nos seja intrínseco almejá-lo.

Uma brisa me distrai e meus olhos se voltam para as alturas da terra. Algo brilha lá em cima. Glória... de um brilho magnético. Meus pés vibram. Volto a respirar. Como um cavalo de guerra.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

domingo, 17 de janeiro de 2010

Easy Rider digital

A espera é longa. Caminho muito a pé muito antes de me aventurar. Lugar para os mais novos primeiro. Melhor observá-los, estudar seus movimentos rápidos e precisos, aprender algo com eles. Como se assentam? Por onde vão? O que os move? Como sabem os caminhos? Descobrem-nos a cada volta ou os sabem de antemão?

Às vezes, um susto. Me espanto com as mudanças bruscas de direção. Como voam por entre os obstáculos. Agilidade ímpar, reflexos imediatos, capacidade de decidir em frações de segundo em um ecossistema marcado pela multiplicidade e inconstância.

Ensaio uma, duas, dez vezes. Por não saber que estrada tomar, desisto em várias delas. Enquanto continuo a observar, já distraído, e quase disposto a abandonar a idéia, pareço ouvir uma voz imperativa: ̶ É a sua vez!

Não há ninguém por perto. Olho dos lados, nada. Silencio-me para ver se se repete. Não, não há eco. É de dentro, a voz. Decido montar e acelerar. A estrada, confirmo, revela inúmeros caminhos. Descubro rápido que o melhor mapa é o instinto, a percepção. Assumo algum equilíbrio e aperto o pulso. O acelerador gira, o motor enche o peito, a vibração irriga as veias. Rotações em ascendência fazem cada milha de chão chegar mais rapidamente.

Tomo, quase inconscientemente, o rumo do deserto. Percebo que o trajeto é cheio, povoado, personalidades várias o habitam e por ele circulam. Tribos diversas, inúmeras gerações, mais novas e mais velhas. Relaxo e acelero mais. O medo se dissolve aos poucos com o vento. Estou na estrada, agora. É quase parte de mim. Só vejo o que deve ser visto.

Escrever um blog, a esta altura, é, para mim, como embarcar em uma nova viagem, desconhecida. É um pouco do sonho-clichê de muitos de minha geração: subir numa Harley Davidson, tomar a Route 66 e experimentar a liberdade simbolizada pelo vento na cara, tendo à frente um belo período sabático, montanhas entrecortadas e nenhum manual a seguir. Easy rider total, dissidente de um mundo atolado em compromissos do lado de cá do teclado. Convenções, avaliação de desempenho, metas de terceiros, passam rapidamente como cactos fincados na areia vermelha aos olhos do aventureiro da estrada digital.

Não há como não perceber que, embora múltipla em gerações que a constroem num sem-fim de possibilidades, a web é espaço apropriado à experimentação dos mais jovens. Em minha concepção, sua ousadia típica, aliada a um certo descompromisso, é o melhor estímulo à germinação da genialidade criadora de novos caminhos tecnológicos, conceituais e até econômicos.

Em todos eles, a comunicação se constrói segundo a segundo como meio de disseminação de uma tonelada diária de pérolas de produtividade, em todas as partes do mundo. Não é raro ver a presença de gente nova, pós-adolescentes que cresceram – e provavelmente nasceram – sem conceber o que seria viver sem a internet. Admirável mundo novo, não tão novo assim.

É nesse habitat digital, em que coexisto há pouco mais de uma década com alguns milhões de cabeças pensantes, que decido me embrenhar e construir um caminho vernacular próprio. Motoqueiro fantasma, olho pelo retrovisor e vejo quarenta bem vividos anos desenhados no estrada que fica. Sem saudosismo, tatuam-se no asfalto quente que se afina até se confundirem com o horizonte lá atrás. Deixam, agora, espaço para a novidade das letras que ganham forma a cada milha de inéditas circunstâncias.

A sensação de liberdade é realmente contagiante. A multiplicidade possível excita. Posso entrar para o mundo dos blogueiros sem levantar nenhuma bandeira. Nenhuma tribo. A estrada é minha. Um caminho de experimentação levemente egoísta, trabalho solitário, artesanato sem compromisso que não seja comigo mesmo. Mas que decido compartilhar.

Esta talvez seja uma das coisas mais gostosas da web, o seu imediatismo quase sem volta. Se antes o texto percorria um longo caminho de papel e tinta, burocracia e investimentos, estocagem e logística até cair às mãos dos leitores, hoje, poesia e prosa, solitárias ou em conjunto, simplesmente saltam do campo das idéias para a rede digital e caem no mundo dos monitores. Postou, tá visto.

Desmoronou grande parte da Muralha da China que separava o imaginário do real. Só que hoje o real é também virtual.

Se uma Harley de verdade, imersa em potência e estabilidade, carrega intensa carga de adrenalina e prazer prestes a detonar, a virtual é a dona da versatilidade. O teclado ligado ao ambiente online literalmente dá asas. Aqui, a gravidade não influi nas manobras. Com o mesmo veículo, atravessamos continentes e eras. Por terra, água, ar ou combinações binárias, ir e vir estão à disposição.

Não sei realmente o que esperar do blog. Nem ele sabe se espera algo de mim. É um relacionamento que se desenha a cada diálogo. Uma convivência que revela aos poucos sua identidade, enquanto propicia um campo de experimentação sem alambrados.

Divirto-me no Word, offline, enquanto decido se publico ou não este post. Em um clique, a Harley vai ter sumido no horizonte e esta etapa da trip já não estará mais em minhas mãos.

Tarde demais...

Vida longa

Pão.
Azeite.
Queijo.
Alho.
Tomate.
Manjericão.
Vinho.
Chocolate.
Música.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A silenciosa rádio do deserto

Escrevo este post embalado pelo som de bandas de rock iranianas do cenário underground (o único, por sinal) de Teerã. Uma delas, precursora do movimento independente em seu país, se consegui entender o nome, é a Ouham, seguida pela Spacewalk, que também anda por debaixo dos panos na cidade. Mais especificamente, o que me inspira o post é o comentário do Maestro Billy, do Estudio Mellancia, em seu podcast Rádio Heineken – aqui: http://mellancia.com.br/new/


De carona no programa musical, fiquei curioso pelo Irã. O fato é que lá a música e a cultura ocidental são proibidas pelo regime islâmico. Dá para um de nós aqui imaginar viver sem? Naturalmente, sempre há a galera subversiva de plantão que fura o regime e arrepia uns acordes em festas e bares clandestinos, eventualmente ecoando até no cenário artístico internacional.


Quem navega no rio dos quarenta ou caminha em uma de suas margens, já pode atestar com alguma propriedade umas três décadas de música, seus respectivos movimentos e recursos artísticos e tecnológicos. No meu caso, o olhar se lança mais sobre o rock, do qual posso dizer que sou um leigo amante.


A percepção musical que tenho dos anos setenta aos oitenta é o a da experimentação e conseqüente elaboração. A criatividade à flor da pele, os sintetizadores fazendo florescer a tecnologia, o rock se consolidando universalmente e tudo isso abrindo espaço para um leque gigantesco de outros estilos. Além disso, pra vingar, além de saber tocar, era preciso ter um brilho a mais e alguma ideologia, algo que a música defendesse, pra coisa sair da garagem e chegar até as massas.


O tempero eletrônico inicial deu mais sabor à carne; com ele, inúmeros pratos sonoros foram criados, outros combinados e todo mundo festejou. Mas a facilidade fast-food, especialmente a partir da virada do milênio, com os “computadores faz-tudo”, pasteurizou o leite. Muita coisa tipo C tomou conta das prateleiras de rádios e baladas, e a música integral precisou baixar um pouco o volume, até para ouvir melhor o que estava acontecendo.


Metáforas à parte, dou graças a Deus pela disponibilidade e diversidade musical que temos Brasil e mundo afora. E viva a internet que nos bota em contato com inimagináveis e infindáveis universos melódicos. Hoje em dia, cada um escolhe via rede o melhor atalho até o som que lhe apraz.


Mas o que me faz refletir no podcast do maestro são os extremos dos dois mundos, oriental e ocidental.

Do lado de lá, além de ideologia e dedicação em aprendizado musical, tocar envolve o risco de perder a liberdade – senão a vida. A música parece retomar um de seus papéis originais, o de arma ideológica que quebra o peso do silêncio repressor.


Do lado de cá, a liberdade e a infinidade de recursos são tantas que, em meio à boa música, apreciada e pacificamente compartilhada entre quem pode distingui-la, um outro tipo de arma nos afronta.

Somos involuntariamente expostos a toneladas de lixo musical, em alguns casos atirado como projéteis letais contra pobres ouvintes mortais. Disparados por sons automotivos de alta repetição, invadem sem piedade nossas ruas e paredes, derrubando qualquer tentativa de ignorá-los, mesmo a distância.


Felizmente, ainda há heróis da resistência com boa pontaria, munidos de caixas e mais caixas de rock’n’roll capazes de tremer um estádio inteiro.


Viva a hora do Rush. E que continuem Rolling, os Stones.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Cara de quarenta procura...

O que querem os caras de quarenta anos?

Com certeza, esta pergunta é feita por muita gente. Gente de quarenta, gente de mais e gente de menos idade. Muitos dizem que é nesta idade que a vida começa. Não sei, mas tenho boas suspeitas.

Claro que quando falo de caras de quarenta, falo de mim. Primeiramente do que sinto. Depois, do que observo. O fato é que ter quarenta é muito bom.

Nesta etapa da existência, a vida nos dá de presente umas lentes especiais para ver o mundo. E, junto com elas, uma grande aventura. Como ainda não cheguei aos cinqüenta e não sei o que dizer deles, vale um rápido retrospecto dos trinta. Nesta idade, a gente já se sente bem maduro, com uma baita energia vital, o corpo ainda mantém inúmeros atributos dos vinte e a experiência acumulada diz pra gente: "Você é o cara!" Medo de alguma coisa? Nem pensar, ainda tenho a vida inteira pela frente...

Mas aos quarenta, a coisa muda um pouco. Embora também dê para manter uma baita vitalidade, o corpo mostra mais seus limites. E a gente aprende a respeitá-los. Não dá para comer qualquer coisa, a qualquer hora. Não dá para fazer qualquer esporte sem que se tenha preparado antes. Não precisamos dizer que temos o desempenho sexual que dizíamos ter aos vinte. Não dá para continuar dormindo pouco sem experimentar alguns efeitos colaterais. Mas dá para viver muito, muito bem.

A experiência que trazemos junto com nossa certidão de nascimento, a esta altura, nos permite analisar as coisas com mais critério e tranqüilidade. A gente não se assusta (nem se ilude) tão facilmente com tudo. A gente escolhe melhor o vinho. A gente conhece melhor quem está ao nosso lado. A gente valoriza mais a segurança do que o imediatismo. A gente até aprende a ouvir. O amor vale mais do que a paixão sozinha.

O maior conflito aos quarenta talvez seja não saber direito se vai dar tempo de fazer tudo o que julgamos realmente importante. Com vinte anos é fácil, fácil acreditar que essas coisas, um dia, nos cairão no colo enquanto rapidamente partimos para outra. A diferença aos quarenta é que o senso de urgência avisa antes de agir, enquanto nos dá força para lutar até transformar em realidade aqueles sonhos nos quais realmente acreditamos e se provaram possíveis. Caso contrário, foi bom enquanto durou.

Mas o que a gente quer, afinal? Experimentar mais demoradamente o que vale a pena é uma boa maneira de começar a compreender.