Escrevo este post embalado pelo som de bandas de rock iranianas do cenário underground (o único, por sinal) de Teerã. Uma delas, precursora do movimento independente em seu país, se consegui entender o nome, é a Ouham, seguida pela Spacewalk, que também anda por debaixo dos panos na cidade. Mais especificamente, o que me inspira o post é o comentário do Maestro Billy, do Estudio Mellancia, em seu podcast Rádio Heineken – aqui: http://mellancia.com.br/new/
De carona no programa musical, fiquei curioso pelo Irã. O fato é que lá a música e a cultura ocidental são proibidas pelo regime islâmico. Dá para um de nós aqui imaginar viver sem? Naturalmente, sempre há a galera subversiva de plantão que fura o regime e arrepia uns acordes em festas e bares clandestinos, eventualmente ecoando até no cenário artístico internacional.
Quem navega no rio dos quarenta ou caminha em uma de suas margens, já pode atestar com alguma propriedade umas três décadas de música, seus respectivos movimentos e recursos artísticos e tecnológicos. No meu caso, o olhar se lança mais sobre o rock, do qual posso dizer que sou um leigo amante.
A percepção musical que tenho dos anos setenta aos oitenta é o a da experimentação e conseqüente elaboração. A criatividade à flor da pele, os sintetizadores fazendo florescer a tecnologia, o rock se consolidando universalmente e tudo isso abrindo espaço para um leque gigantesco de outros estilos. Além disso, pra vingar, além de saber tocar, era preciso ter um brilho a mais e alguma ideologia, algo que a música defendesse, pra coisa sair da garagem e chegar até as massas.
O tempero eletrônico inicial deu mais sabor à carne; com ele, inúmeros pratos sonoros foram criados, outros combinados e todo mundo festejou. Mas a facilidade fast-food, especialmente a partir da virada do milênio, com os “computadores faz-tudo”, pasteurizou o leite. Muita coisa tipo C tomou conta das prateleiras de rádios e baladas, e a música integral precisou baixar um pouco o volume, até para ouvir melhor o que estava acontecendo.
Metáforas à parte, dou graças a Deus pela disponibilidade e diversidade musical que temos Brasil e mundo afora. E viva a internet que nos bota em contato com inimagináveis e infindáveis universos melódicos. Hoje em dia, cada um escolhe via rede o melhor atalho até o som que lhe apraz.
Mas o que me faz refletir no podcast do maestro são os extremos dos dois mundos, oriental e ocidental.
Do lado de lá, além de ideologia e dedicação em aprendizado musical, tocar envolve o risco de perder a liberdade – senão a vida. A música parece retomar um de seus papéis originais, o de arma ideológica que quebra o peso do silêncio repressor.
Do lado de cá, a liberdade e a infinidade de recursos são tantas que, em meio à boa música, apreciada e pacificamente compartilhada entre quem pode distingui-la, um outro tipo de arma nos afronta.
Somos involuntariamente expostos a toneladas de lixo musical, em alguns casos atirado como projéteis letais contra pobres ouvintes mortais. Disparados por sons automotivos de alta repetição, invadem sem piedade nossas ruas e paredes, derrubando qualquer tentativa de ignorá-los, mesmo a distância.
Felizmente, ainda há heróis da resistência com boa pontaria, munidos de caixas e mais caixas de rock’n’roll capazes de tremer um estádio inteiro.
Viva a hora do Rush. E que continuem Rolling, os Stones.
GRaaaande amigo Marcelo!! Sempre tão especial em suas escritas. Bom falta pouco pra eu fazer parte das " Mulheeeeres de quarenta", mas já deixo aqui registrada minha adesão. Acho que vamos nos divertir muito. Beijo...Gi
ResponderExcluirComo um cara de "quase 40"...faltam só 3 meses e meio, entendo perfeitamente o que vc sente...poucas coisas soam mais verdadeiras do que a guitarra do Keith Richards...
ResponderExcluirabraço
Curti seu estilo, bro. Sou sua fã. ;-D
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ResponderExcluiralô marcelo
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