A espera é longa. Caminho muito a pé muito antes de me aventurar. Lugar para os mais novos primeiro. Melhor observá-los, estudar seus movimentos rápidos e precisos, aprender algo com eles. Como se assentam? Por onde vão? O que os move? Como sabem os caminhos? Descobrem-nos a cada volta ou os sabem de antemão?
Às vezes, um susto. Me espanto com as mudanças bruscas de direção. Como voam por entre os obstáculos. Agilidade ímpar, reflexos imediatos, capacidade de decidir em frações de segundo em um ecossistema marcado pela multiplicidade e inconstância.
Ensaio uma, duas, dez vezes. Por não saber que estrada tomar, desisto em várias delas. Enquanto continuo a observar, já distraído, e quase disposto a abandonar a idéia, pareço ouvir uma voz imperativa: ̶ É a sua vez!
Não há ninguém por perto. Olho dos lados, nada. Silencio-me para ver se se repete. Não, não há eco. É de dentro, a voz. Decido montar e acelerar. A estrada, confirmo, revela inúmeros caminhos. Descubro rápido que o melhor mapa é o instinto, a percepção. Assumo algum equilíbrio e aperto o pulso. O acelerador gira, o motor enche o peito, a vibração irriga as veias. Rotações em ascendência fazem cada milha de chão chegar mais rapidamente.
Tomo, quase inconscientemente, o rumo do deserto. Percebo que o trajeto é cheio, povoado, personalidades várias o habitam e por ele circulam. Tribos diversas, inúmeras gerações, mais novas e mais velhas. Relaxo e acelero mais. O medo se dissolve aos poucos com o vento. Estou na estrada, agora. É quase parte de mim. Só vejo o que deve ser visto.
Escrever um blog, a esta altura, é, para mim, como embarcar em uma nova viagem, desconhecida. É um pouco do sonho-clichê de muitos de minha geração: subir numa Harley Davidson, tomar a Route 66 e experimentar a liberdade simbolizada pelo vento na cara, tendo à frente um belo período sabático, montanhas entrecortadas e nenhum manual a seguir. Easy rider total, dissidente de um mundo atolado em compromissos do lado de cá do teclado. Convenções, avaliação de desempenho, metas de terceiros, passam rapidamente como cactos fincados na areia vermelha aos olhos do aventureiro da estrada digital.
Não há como não perceber que, embora múltipla em gerações que a constroem num sem-fim de possibilidades, a web é espaço apropriado à experimentação dos mais jovens. Em minha concepção, sua ousadia típica, aliada a um certo descompromisso, é o melhor estímulo à germinação da genialidade criadora de novos caminhos tecnológicos, conceituais e até econômicos.
Em todos eles, a comunicação se constrói segundo a segundo como meio de disseminação de uma tonelada diária de pérolas de produtividade, em todas as partes do mundo. Não é raro ver a presença de gente nova, pós-adolescentes que cresceram – e provavelmente nasceram – sem conceber o que seria viver sem a internet. Admirável mundo novo, não tão novo assim.
É nesse habitat digital, em que coexisto há pouco mais de uma década com alguns milhões de cabeças pensantes, que decido me embrenhar e construir um caminho vernacular próprio. Motoqueiro fantasma, olho pelo retrovisor e vejo quarenta bem vividos anos desenhados no estrada que fica. Sem saudosismo, tatuam-se no asfalto quente que se afina até se confundirem com o horizonte lá atrás. Deixam, agora, espaço para a novidade das letras que ganham forma a cada milha de inéditas circunstâncias.
A sensação de liberdade é realmente contagiante. A multiplicidade possível excita. Posso entrar para o mundo dos blogueiros sem levantar nenhuma bandeira. Nenhuma tribo. A estrada é minha. Um caminho de experimentação levemente egoísta, trabalho solitário, artesanato sem compromisso que não seja comigo mesmo. Mas que decido compartilhar.
Esta talvez seja uma das coisas mais gostosas da web, o seu imediatismo quase sem volta. Se antes o texto percorria um longo caminho de papel e tinta, burocracia e investimentos, estocagem e logística até cair às mãos dos leitores, hoje, poesia e prosa, solitárias ou em conjunto, simplesmente saltam do campo das idéias para a rede digital e caem no mundo dos monitores. Postou, tá visto.
Desmoronou grande parte da Muralha da China que separava o imaginário do real. Só que hoje o real é também virtual.
Se uma Harley de verdade, imersa em potência e estabilidade, carrega intensa carga de adrenalina e prazer prestes a detonar, a virtual é a dona da versatilidade. O teclado ligado ao ambiente online literalmente dá asas. Aqui, a gravidade não influi nas manobras. Com o mesmo veículo, atravessamos continentes e eras. Por terra, água, ar ou combinações binárias, ir e vir estão à disposição.
Não sei realmente o que esperar do blog. Nem ele sabe se espera algo de mim. É um relacionamento que se desenha a cada diálogo. Uma convivência que revela aos poucos sua identidade, enquanto propicia um campo de experimentação sem alambrados.
Divirto-me no Word, offline, enquanto decido se publico ou não este post. Em um clique, a Harley vai ter sumido no horizonte e esta etapa da trip já não estará mais em minhas mãos.
Tarde demais...
Às vezes, um susto. Me espanto com as mudanças bruscas de direção. Como voam por entre os obstáculos. Agilidade ímpar, reflexos imediatos, capacidade de decidir em frações de segundo em um ecossistema marcado pela multiplicidade e inconstância.
Ensaio uma, duas, dez vezes. Por não saber que estrada tomar, desisto em várias delas. Enquanto continuo a observar, já distraído, e quase disposto a abandonar a idéia, pareço ouvir uma voz imperativa: ̶ É a sua vez!
Não há ninguém por perto. Olho dos lados, nada. Silencio-me para ver se se repete. Não, não há eco. É de dentro, a voz. Decido montar e acelerar. A estrada, confirmo, revela inúmeros caminhos. Descubro rápido que o melhor mapa é o instinto, a percepção. Assumo algum equilíbrio e aperto o pulso. O acelerador gira, o motor enche o peito, a vibração irriga as veias. Rotações em ascendência fazem cada milha de chão chegar mais rapidamente.
Tomo, quase inconscientemente, o rumo do deserto. Percebo que o trajeto é cheio, povoado, personalidades várias o habitam e por ele circulam. Tribos diversas, inúmeras gerações, mais novas e mais velhas. Relaxo e acelero mais. O medo se dissolve aos poucos com o vento. Estou na estrada, agora. É quase parte de mim. Só vejo o que deve ser visto.
Escrever um blog, a esta altura, é, para mim, como embarcar em uma nova viagem, desconhecida. É um pouco do sonho-clichê de muitos de minha geração: subir numa Harley Davidson, tomar a Route 66 e experimentar a liberdade simbolizada pelo vento na cara, tendo à frente um belo período sabático, montanhas entrecortadas e nenhum manual a seguir. Easy rider total, dissidente de um mundo atolado em compromissos do lado de cá do teclado. Convenções, avaliação de desempenho, metas de terceiros, passam rapidamente como cactos fincados na areia vermelha aos olhos do aventureiro da estrada digital.
Não há como não perceber que, embora múltipla em gerações que a constroem num sem-fim de possibilidades, a web é espaço apropriado à experimentação dos mais jovens. Em minha concepção, sua ousadia típica, aliada a um certo descompromisso, é o melhor estímulo à germinação da genialidade criadora de novos caminhos tecnológicos, conceituais e até econômicos.
Em todos eles, a comunicação se constrói segundo a segundo como meio de disseminação de uma tonelada diária de pérolas de produtividade, em todas as partes do mundo. Não é raro ver a presença de gente nova, pós-adolescentes que cresceram – e provavelmente nasceram – sem conceber o que seria viver sem a internet. Admirável mundo novo, não tão novo assim.
É nesse habitat digital, em que coexisto há pouco mais de uma década com alguns milhões de cabeças pensantes, que decido me embrenhar e construir um caminho vernacular próprio. Motoqueiro fantasma, olho pelo retrovisor e vejo quarenta bem vividos anos desenhados no estrada que fica. Sem saudosismo, tatuam-se no asfalto quente que se afina até se confundirem com o horizonte lá atrás. Deixam, agora, espaço para a novidade das letras que ganham forma a cada milha de inéditas circunstâncias.
A sensação de liberdade é realmente contagiante. A multiplicidade possível excita. Posso entrar para o mundo dos blogueiros sem levantar nenhuma bandeira. Nenhuma tribo. A estrada é minha. Um caminho de experimentação levemente egoísta, trabalho solitário, artesanato sem compromisso que não seja comigo mesmo. Mas que decido compartilhar.
Esta talvez seja uma das coisas mais gostosas da web, o seu imediatismo quase sem volta. Se antes o texto percorria um longo caminho de papel e tinta, burocracia e investimentos, estocagem e logística até cair às mãos dos leitores, hoje, poesia e prosa, solitárias ou em conjunto, simplesmente saltam do campo das idéias para a rede digital e caem no mundo dos monitores. Postou, tá visto.
Desmoronou grande parte da Muralha da China que separava o imaginário do real. Só que hoje o real é também virtual.
Se uma Harley de verdade, imersa em potência e estabilidade, carrega intensa carga de adrenalina e prazer prestes a detonar, a virtual é a dona da versatilidade. O teclado ligado ao ambiente online literalmente dá asas. Aqui, a gravidade não influi nas manobras. Com o mesmo veículo, atravessamos continentes e eras. Por terra, água, ar ou combinações binárias, ir e vir estão à disposição.
Não sei realmente o que esperar do blog. Nem ele sabe se espera algo de mim. É um relacionamento que se desenha a cada diálogo. Uma convivência que revela aos poucos sua identidade, enquanto propicia um campo de experimentação sem alambrados.
Divirto-me no Word, offline, enquanto decido se publico ou não este post. Em um clique, a Harley vai ter sumido no horizonte e esta etapa da trip já não estará mais em minhas mãos.
Tarde demais...
Parabéns pelo blog, Marcelo, vou acompanhar. Estou atualizando minhas aventuras pela Europa no facebook, vê se cria um perfil por lá. É mais dinâmico que o Orkut. Dia desses vou cometer um Orkuticídio... Abração
ResponderExcluirO blog nada mais é do que aquele "caderninho" de memórias, textos e anotações da nossa "juventude" transmutado em formato digital...ou um blog é só um blog...ou não !?
ResponderExcluirAbraços e obrigadíssimo pelas suas pitadas sempre sensíveis no Melodia Universal